
Por Alberto Damián Montiel — Diretor da Escola de Música Harmonia, pianista e professor de piano
No último sábado, 10 de outubro de 2026, realizamos mais uma edição de nossas tradicionais Audições Internas da Escola de Música Harmonia. Foi um daqueles momentos que nos convidam a refletir sobre o verdadeiro significado de estudar música, sobre os caminhos da aprendizagem e, sobretudo, sobre a coragem de compartilhar com outras pessoas aquilo que construímos ao longo de tantas horas de dedicação.
Como diretor da Escola e professor de piano, acompanhando atualmente 21 alunos em diferentes etapas de formação, tenho o privilégio de observar de perto um processo fascinante: a transformação gradual de dificuldades em conquistas, de inseguranças em confiança e de pequenos avanços técnicos em possibilidades cada vez maiores de expressão artística.
Uma audição, vista superficialmente, pode parecer apenas uma sucessão de apresentações musicais. Entretanto, para quem conhece o trabalho desenvolvido nos bastidores, cada interpretação representa uma história particular de esforço, persistência, expectativas e superação.
O palco como extensão da sala de aula
Costumo compreender nossas audições não como um ponto final, mas como parte fundamental do processo educativo.
Estudar um instrumento exige disciplina, concentração, sensibilidade e, acima de tudo, continuidade. Durante as aulas, trabalhamos aspectos técnicos, leitura musical, compreensão estilística, fraseado, sonoridade e interpretação. Mas existe uma dimensão da formação musical que dificilmente pode ser reproduzida integralmente dentro da sala de aula: a experiência de tocar diante de outras pessoas.
É nesse momento que o aluno se encontra com desafios diferentes. A concentração assume outra dimensão, a percepção do tempo pode mudar e aquilo que parecia perfeitamente resolvido durante os estudos passa a exigir uma nova capacidade de adaptação.
O nervosismo, tão frequente nessas ocasiões, não deve ser interpretado como sinal de despreparo. Ele faz parte da experiência artística, inclusive entre músicos profissionais. Aprender a conviver com essa emoção, sem permitir que ela impeça a comunicação musical, é também uma conquista.
O palco não é apenas o lugar onde demonstramos o que aprendemos. É, sobretudo, um lugar onde continuamos aprendendo.
Entre a perfeição e a expressão

Cada aluno, um percurso diferente
Existe uma questão importante que merece nossa atenção: o que realmente esperamos de um aluno durante uma apresentação?
Naturalmente, desejamos uma execução cuidadosa, com domínio técnico, fidelidade ao texto musical e coerência interpretativa. Esses objetivos são legítimos e fazem parte de uma formação musical séria.
Entretanto, seria um equívoco reduzir a qualidade de uma apresentação à simples ausência de notas erradas.
Uma interpretação musical envolve muito mais. Envolve intenção, escuta, compreensão da obra, capacidade de construir frases, perceber tensões e repousos, estabelecer contrastes e transmitir uma ideia musical.
Um aluno pode executar uma obra com algumas imperfeições e, ainda assim, revelar um crescimento artístico extraordinário. Da mesma forma, uma apresentação tecnicamente correta pode nos mostrar que ainda há um longo caminho a percorrer no desenvolvimento da expressividade.
É justamente essa capacidade de observar o conjunto, sem perder de vista os detalhes, que torna a audição uma ferramenta pedagógica tão valiosa.
Não buscamos a perfeição imediata. Buscamos uma evolução consistente, construída com consciência e sensibilidade.
Cada aluno, um percurso diferente
Um dos aspectos mais enriquecedores de nossa audição foi a diversidade de repertórios, níveis de desenvolvimento e personalidades musicais.
Cada estudante chegou ao palco trazendo sua própria trajetória. Para alguns, o desafio principal foi enfrentar a exposição pública. Para outros, executar uma obra tecnicamente mais exigente, controlar a ansiedade, preservar a continuidade musical ou simplesmente confiar no trabalho realizado durante as aulas.
Essas diferenças precisam ser respeitadas.
A educação musical não deve ser uma corrida em que todos precisam alcançar os mesmos resultados ao mesmo tempo. O desenvolvimento artístico não acontece de maneira uniforme. Existem períodos de avanços rápidos, momentos de aparente estagnação e etapas em que a compreensão musical amadurece silenciosamente.
Como educadores, precisamos reconhecer essas particularidades e estimular cada aluno a avançar a partir de suas próprias possibilidades, sem abrir mão da qualidade e do compromisso com o estudo.
O progresso de um estudante não deve ser medido pela comparação com seus colegas, mas pela distância que ele conseguiu percorrer em relação a si mesmo.
A importância de aprender a ouvir
Outro aspecto que considero fundamental é a experiência de participar da audição também como ouvinte.
Quando um aluno assiste à apresentação de seus colegas, entra em contato com repertórios diferentes, observa outras maneiras de interpretar e começa a desenvolver uma escuta mais atenta e crítica.
Aprender música não significa apenas aprender a tocar. Significa também aprender a ouvir.
A plateia, nesse sentido, deixa de ser um elemento passivo e passa a integrar o ambiente educativo. O respeito pelo silêncio, a atenção dedicada ao intérprete e o reconhecimento do esforço de cada participante são atitudes que contribuem para a formação de uma verdadeira cultura musical.
É especialmente importante que nossos alunos compreendam que a música não se resume à experiência individual diante de um instrumento. Ela é também encontro, diálogo e compartilhamento.
O que levamos desta audição?

Ao término de uma apresentação, é natural que o aluno se concentre naquilo que poderia ter feito melhor. Uma passagem insegura, uma nota equivocada ou um momento de hesitação podem assumir proporções muito maiores em sua memória do que todos os trechos executados com sucesso.
Por isso, considero essencial que a avaliação posterior seja equilibrada.
Precisamos identificar os aspectos que merecem atenção, mas também reconhecer aquilo que foi conquistado. A autocrítica é indispensável ao desenvolvimento artístico, desde que não se transforme em desestímulo.
Uma audição nos oferece informações preciosas para orientar as próximas etapas do estudo. Ela revela pontos de segurança, fragilidades técnicas, aspectos interpretativos que precisam amadurecer e, muitas vezes, capacidades que o próprio aluno ainda não havia percebido possuir.
O mais importante é transformar essa experiência em motivação para continuar.
A apresentação não encerra o trabalho. Ela ilumina o caminho que temos pela frente.
Uma escola que acredita no processo
Desde sua fundação, em 2004, a Escola de Música Harmonia procura construir um ambiente em que o ensino musical esteja associado ao desenvolvimento humano, à sensibilidade artística e ao respeito pela individualidade de cada estudante.
Nossas audições fazem parte dessa proposta.
Não são competições, tampouco demonstrações de virtuosismo a qualquer custo. São oportunidades de crescimento, de convivência e de valorização do trabalho realizado por alunos e professores.
Naturalmente, queremos formar músicos cada vez mais preparados. Mas desejamos também contribuir para a formação de pessoas capazes de enfrentar desafios, desenvolver disciplina, reconhecer suas limitações, celebrar suas conquistas e compreender o valor da perseverança.
A música oferece um caminho extraordinário para esse aprendizado.
Aos nossos alunos e familiares
Aos alunos que participaram desta audição, deixo meu reconhecimento pelo trabalho desenvolvido e, especialmente, pela disposição de enfrentar o desafio de subir ao palco.
Independentemente do resultado individual, cada apresentação representa uma etapa importante de um percurso que continua.
Aos familiares, agradeço pelo incentivo, pela confiança e pelo apoio cotidiano. O aprendizado musical exige tempo, paciência e constância, e a participação da família é frequentemente decisiva para que esse processo se desenvolva de maneira saudável.
Aos professores e a toda a equipe da Escola Harmonia, meu agradecimento pelo comprometimento com a formação de nossos estudantes e pela dedicação à realização de mais uma audição.
Encerro esta reflexão com uma convicção que se fortalece a cada ano de trabalho: a maior conquista de uma educação musical não está apenas na obra que o aluno consegue executar hoje, mas na pessoa e no músico que ele está se tornando ao longo desse caminho.
Que esta 34ª Audição Interna permaneça em nossa memória não apenas pelas músicas que ouvimos, mas pelo que cada uma delas representou na trajetória de quem teve a coragem de interpretá-las.
E que continuemos estudando, ouvindo, descobrindo e fazendo música.
Porque, afinal, a música não é apenas aquilo que conseguimos tocar. É também tudo aquilo que aprendemos enquanto tentamos.
Alberto Damián Montiel
Diretor da Escola de Música Harmonia
Pianista e professor de piano
Balneário Camboriú — Outubro de 2026
